quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A mão e as marcas da censura brasileira.



A censura em nosso país foi oficializada durante a República Velha e desde então sua aplicabilidade se mostrou extremamente abrangente, compreendendo o teatro, o cinema, a imprensa, a música, entre outras atividades.

Durante a Ditadura Civil-Militar, a censura foi utilizada como meio de legitimação do poder dos militares, ou seja, censurava-se com o pretexto de proteger a população de “ideologias subversivas da ordem pública e social [comunismo]” e em defesa da “moral e dos bons costumes”, através de um aparato legal instituído. Porém, distante dos arquivos e das pesquisas em torno da censura, a população brasileira, em geral, tem uma idéia um tanto etérea de sua existência e aplicação, pelo desconhecimento que causa o estranhamento, ou até mesmo porque nunca foi submetida à ela.

Tenho conversado bastante com pessoas que viveram o período de repressão e censura durante a Ditadura. Grande parte delas – ao menos as que não faziam parte, na época, de nenhuma atividade cultural – desconhece ou possuem inúmeras dúvidas referentes à censura, bem como, que tenha ocorrido da forma na qual eu tenho exposto a elas. O que mais escuto dos meus “entrevistados” é: “Verdade guri! Mas eu nunca vi isso...”, ou então, “Eu nunca vi nada disso, não lembro que isso tenha acontecido...”. Realmente o brasileiro tem um sério problema com a memória! De quatro em quatro anos esquece até em quem votou, imagina se vão lembrar de fatos que ocorreram há vinte, trinta ou quarenta anos atrás.

Pensando nessa falha de memória do brasileiro, aproveito o ensejo e remonto ao ano de 1982 (final do período ditatorial), com uma imagem que embora desconfortável para mim, é uma prova inegável da ação dos censores da Divisão de Censura de Diversões Públicas (D. C. D. P.), órgão que auxiliava o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) na vigilância aos artistas brasileiros durante os tempos de intenso cerceamento das liberdades sócio-culturais. Nas imagens à baixo, é possível contemplar a mão e as marcas deixadas pelos censores sobre as atividades musicais em nosso país.

Antes de comentar sobre o LP, gostaria de falar um pouco sobre a ficha técnica do mesmo, afinal, nada disso existiria se não fosse pelo trabalho coletivo dessas pessoas. Evandro Mesquita (Voz, Vocal, Ovation, Gaita); Ricardo Barreto (Vocal, Guitarra, Violão); Antonio Pedro Fortuna (Vocal, Contrabaixo, Gongo); Wiliam Forghieri (Vocal, Teclados e Marimba); Márcia Bulcão (Vocal); Fernanda Abreu (Vocal); João Luiz Woerdenbag (Bateria). Os arranjos musicais são assinados pela BLITZ, e ao que tudo indica, o álbum foi gravado pelos próprios músicos da banda. A EMI-ODEON assina a produção fonográfica, acompanhada de Mariozinho Rocha (Direção de Produção); Amaro Moço, Franklin Garrido, Carlinhos e Sergio Bittencourt (Técnicos de Gravação).

Na capa do LP da Banda BLITZ, no canto superior esquerdo, é possível ler a seguinte mensagem: “Impróprio para menores de 18 anos”. Logo em seguida, um pouco a baixo, a mensagem é a seguinte: “Aprovado pelo código de ética”. Na parte de baixo da capa, em letras bem menores está escrito: “As músicas faixa 5 do lado B Ela quer morar comigo na lua e a faixa 6 do lado B “Cruel, cruel esquizofrênico blues estão interditadas para execução pública”. Na contra capa, outra mensagem salta aos olhos: “ATENÇÃO: Por terem sido vetadas pela censura (D. C. D. P.) as duas últimas faixas do lado B foram intencionalmente inutilizadas”. Além disso, essas duas faixas estão sublinhadas em vermelho, coincidência ou não, sabemos bem o que representa simbolicamente a cor vermelha, ainda mais naquela época.

Esse é um dos poucos casos, no âmbito musical, onde a atuação dos burocratas responsável pela censura prévia foi exposta de modo explícito aos brasileiros. Como sabemos, toda e qualquer composição inédita deveria passar pelo crivo dos censores antes de circular pelos meios de comunicação (mercado fonográfico, rádio e televisão). Se o parecer desses censores não fosse favorável à canção, essa teria vetada sua circulação. Na grande maioria das vezes somente os censores, os músicos, compositores e as produtoras ficavam sabendo disso, pois eram eles os principais envolvidos nessas petições.

Portanto, o LP “As aventuras da BLITZ” de 1982 é uma mostra fidedigna da ação e das marcas da censura brasileira. Longe dos arquivos e documentos acerca da censura esse LP é uma ferramenta funcional, pois, além de comprovar tais arbitrariedades, contribui para que não esqueçamos as barbaridades cometidas por grande parte dos militares que eram amparados por largas parcelas da sociedade civil brasileira.

5 comentários:

  1. Amor, ficou muito bom!! As fotos também, mas parece que as marcas (ranhuras) não estão aparecendo bem nessa foto... estranho, porque quando vimos as fotos, a selecionada estava bem evidente.
    Mas o texto, como já havia te dito, está perfeito!!
    Tomara que seja bastante acessado, para que todos tenham conhecimento acerca do acontecido.
    Beijos, amo-te.

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  2. Bah gordo, eu lembro disso. Lembro que uma colega de colégio, lá no primeiro grau, certa feita, levou o disco para a sala de aula e mostrou para todo mundo. Nunca esqueci aquilo.

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  3. Pois é tio Gersito!

    Eu utilizei essa disco como fonte num trabalho da graduação. Rendeu muito boas discussões!

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  4. Eu lembro de ter lido em algum lugar que se chegou ao cúmulo de censurar até música instrumental...

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  5. É verdade Leonardo. Também lembro de ter lido em algum livro que até a música instrumental sofreu com a censura.

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