quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Escolas do terror.

Nessa semana recebi um e-mail da ANPUH-RS que me perturbou bastante. Nesse e-mail estava a cópia da carta que o presidente nacional da ANPUH, senhor Durval Muniz de Albuquerque Nunes remeteu ao Ministro da Educação, senhor Fernando Haddad, referente a matéria divulgada na Folha de São Paulo, no dia 13 de Junho, intitulada: "Livro do Exército ensina a louvar a ditadura". 

Até o momento não tive acesso à integra da matéria da Folha, pois o conteúdo do jornal acessado pela Internet é de exclusividade dos assinantes UOL. De qualquer modo, estou disponibilizando a todos a carta-manifesto do senhor Durval Muniz. Vale a pena ler e refletir, acerca dos artifícios inescrupulosos utilizados por essa "gente" com o objetivo de manipular a memória - o velho "jogo da memória" - a fim de legitimar vinte e um anos de terrorismo de Estado. Segue na integra o manifesto.

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Ao Exmo. Sr. Ministro da Educação

Dr. Fernando Haddad
Do: Presidente da ANPUH – Associação Nacional de História
Dr. Durval Muniz de Albuquerque Júnior

Foi com enorme preocupação que lemos matéria veiculada pelo Jornal Folha de São Paulo, edição do dia 13 de junho de 2010, intitulada “Livro do Exército ensina a louvar a ditadura”, na qual se relatava o fato de que as escolas militares adotam livros didáticos em que a história do golpe de Estado de 1964 e o posterior período de ditadura militar são não só justificados e legitimados, como para que isso ocorra o material didático utilizado distorce propositadamente os fatos ocorridos naquele período. Nestes livros poder-se-ia ler pérolas como essa: “Nos governos militares, em particular na gestão do presidente Médici, houve a censura dos meios de comunicação e o combate e eliminação das guerrilhas, urbana e rural, porque a preservação da ordem pública era condição necessária ao progresso do país”.

Achamos que este Ministério que patrocina um Programa Nacional do Livro Didático, que submete a avaliação todo o material didático circulante no país, mediante o trabalho de especialistas em cada área, não pode se omitir e ser conivente com a adoção pelas escolas militares de material didático não submetido à avaliação e que, supomos, contraria a própria visão que este Ministério e este governo têm dos episódios ocorridos em 1964.

Sabemos que os eventos históricos são passíveis de variadas interpretações, mas ao ser verdadeiro o teor da reportagem supracitada, veracidade que esperamos seja verificada por este Ministério, estamos diante da simples e pura adulteração dos eventos, pois toda interpretação em História deve estar amparada em documentação e em evidências palpáveis. Ao ser verdadeiro o teor da reportagem, estaremos diante de leituras da história do período que não possuem qualquer amparo documental ou fático. O que temos é a pura e simples deturpação proposital e ideológica de acontecimentos lamentáveis nos quais estiveram evolvidos determinados setores das Forças Armadas brasileiras, neste período, que precisam ser publicizados e relembrados para que não venham novamente a ocorrer.     
 
O Ministério da Educação, em um governo capitaneado por um Presidente da República que foi vítima direta do regime ditatorial implantado em 1964, que abriga em todos os seus escalões pessoas que foram alvo de perseguição e até de tortura pelo regime implantado após o golpe militar, não pode ser conivente com o que consideramos ser um entulho autoritário, uma visão edulcorada e deturpada do nosso passado recente, que tantas feridas deixou.

O ensino da História é partícipe direto da produção de subjetividades, da formação de consciências, de formas de ver e interpretar o mundo, ele participa diretamente da formação ética e política do sujeito e do cidadão, por isso é de suma importância a avaliação de que versões do passado estão sendo ensinadas. Que subjetividades, que tipo de consciência, que visões de mundo podem estar sendo formadas por uma versão da história que justifica e legitima um golpe contra as instituições ainda em nome de uma pretensa defesa da democracia e da civilização ocidental e cristã, que cidadãos estão sendo formados por uma literatura que justifica, legitima e esconde o arbítrio, a tortura e a violência. Estes livros são no mínimo um duvidoso exemplo de comportamento ético.

Certos de que este assunto merecerá a atenção e a devida apuração por parte deste Ministério e que este tomará as providências cabíveis.

Subscrevemo-nos, atenciosamente

Durval Muniz de Albuquerque Júnior

Presidente da ANPUH

2 comentários:

  1. Grande Leandro.. vou oficializar aqui o convite: Quero que venhas publicar conosco teus textos no asfixiaurbana.blogspot.com Teus textos seriam muito bem vindos! Acho que a Deka já deve ter falado contigo! Grande abraço!

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  2. Valeu grande Rafa!

    Agradeço e aceito o convite. Sempre que possível irei postar alguma coisa por lá!

    Abração

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